CORDAS



Uma pedra não é o início, no início não havia senão pequenas cordas, líquidos, cores, tecidos não exteriores que nos vestiam mais do que a pele. "A paz que vai além do entendimento", disse ele, e que só por estarmos presos procuramos a chave. Mas não estamos presos, antes um pouco à deriva, como nenhuma pedra sabe ou pode estar. E não procuramos chave alguma, apenas uma certa nitidez, um ponto fixo que não se fixasse, onda fotografada quando mais alta, mas sem ser fotografia. Alguém fotografou essa onda contra uma falésia, em dia de temporal, e eu vi-a anos depois na parede de um café, emoldurada, em frente ao mar. Os empregados gostavam de mostrá-la, imensa, antecipando o espanto dos clientes: "olhe com atenção, repare bem, é o rosto de deus". A paz que vai além do entendimento, disse ele. Podia ter acrescentado que não há chave, podia ter falado desse rosto recortado na onda mais alta, ter distinguido o que se move, ainda quando se fixa, da imobilidade de uma pedra. Uma pedra não tem pele. Veias são pequenas cordas. Podia ter apontado as diferenças.



A Porta de Duchamp (Averno 031)